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Rondônia, sexta, 22 de outubro de 2021.



Exame

Na direção do outro ou como tornar a escola um ambiente de carinho


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Colégio Sapiens

Por Fernando Shayer*

“Geral! Geral! Geral!”. Esse era o grito que eu ouvi muitas vezes no ensino médio (na verdade, no colegial, porque isso era nos anos 80), quando meus colegas de escola, com livros didáticos nas mãos, juntavam-se em volta de outro e lhe batiam na cabeça. A bem da verdade, podia-se “dar geral” com as mãos abertas, mas nunca com as mãos fechadas. Se não, era falta de respeito…


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Certa vez, em uma aula de química orgânica, depois de eu responder algo errado em voz alta, o professor olhou sorrateiramente aos demais e disse “bem, meus queridos, só uma palavra pode ser dita diante desta resposta ridícula: geral!” E lá fui eu cobrir a minha cabeça, para me proteger daquela bordoada autorizada que os demais vieram aplicar em mim.

De maneira geral, a experiência de sala de aula era ruim, para mim e para muitos outros alunos. Eu estudava e tirava boas notas, mas, muitas vezes, me sentia fazendo algo que não entendia e estudava exclusivamente para meus pais e professores não ficarem bravos comigo. E, para não levar geral dos colegas. E você? Também sofreu bullying? E soube, no momento, identificar que isso estava acontecendo? E os teus filhos? Como você sabe que não estão sofrendo bullying na escola?

Em 2018, a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) fez uma investigação sobre bullying, com estudantes com 15 anos de 79 países que fizeram o exame de proficiência internacional do PISA em leitura, matemática e ciências. A OCDE perguntou aos estudantes coisas como: quantas vezes os outros estudantes te deixaram fora das atividades de propósito?, quantas vezes zombaram de você?, quantas o ameaçaram?, tiraram ou destruíram suas coisas?, te agrediram fisicamente? ou espalharam boatos desagradáveis a teu respeito?

Quase um terço (29%) dos estudantes brasileiros relataram ter sofrido bullying pelo menos uma vez por mês, contra quase um quarto (23%) em média nos países da OCDE. Além disso, 12% dos estudantes brasileiros foram classificados como sendo vítimas frequentes de bullying (contra 9% em média nos países da OCDE).

Segundo a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), entre os alunos do 9º. ano do Ensino Fundamental (antiga 8ª série do ginásio) que reportaram sofrer bullying, a maioria é constituída por meninos, de minorias étnicas e de origens humildes, tendo como principais causas declaradas a aparência física, raça e etnia, religião, orientação sexual e local de origem. Esses dados constam do relatório “A Educação no Brasil: Uma perspectiva internacional” da OCDE.

Do ponto de vista acadêmico, a investigação da OCDE indicou que estudantes que vivenciaram o bullying como vítima, agressor ou observador tiveram piores resultados educacionais. Em média, os estudantes brasileiros que reportaram ter sofrido bullying algumas vezes por mês pontuaram 24 pontos a menos do que os estudantes que sofreram menos bullying, considerando perfil socioeconômico dos estudantes e escolas. Para fins de comparação, a média dos estudantes em leitura foi de 413 pontos em leitura e, portanto, 24 pontos a menos é muito expressivo.

Mais importante do que isso, o efeito do bullying na saúde mental, emocional e física dos jovens é muito negativo. Estamos no mês de setembro, do movimento Setembro Amarelo, uma campanha de conscientização sobre a prevenção do suicídio. Como mostram as pesquisas no mundo todo, suicídio entre jovens (nem sempre está), mas pode estar associado à ocorrência de bullying.

A vulnerabilidade ao suicídio entre os jovens é um problema complexo, que pode estar relacionada a uma série de causas biológicas, emocionais e sociais interdependentes (e não a uma só razão), incluindo-se, dentre outros, exposição à violência dentro e fora da escola, perda de um ente querido, conflitos familiares, falta de significado, desamparo e desesperança, uso de drogas, ansiedade, depressão, esquizofrenia e outras condições psiquiátricas. Comportamentos típicos de jovens em situação de maior risco incluem o isolamento social, mudanças bruscas de humor e automutilação.

O impacto do tratamento preventivo é alto. Na escola, isso inclui educar os estudantes sobre o bullying e seus efeitos, ter uma cultura que expressamente não aceite esta prática, diferentemente daquela que tínhamos nos anos 80. Inclui ter um relacionamento próximo com os alunos, ajudar o jovem em risco a conectar-se às pessoas e ao ambiente, valorizar seus atributos e características, interessar-se pelas suas atividades, ouvi-lo individualmente e com muita proximidade e disponibilidade emocional, e encorajá-lo a tomar parte em atividades extracurriculares engajadoras.

De maneira geral, ter uma pedagogia ativa que estimule os alunos a interagir com os demais em sala (e fora dela) também diminui o risco de isolamento e de não-identificação com o projeto e ambiente escolar, assim como atividades que desenvolvam competências sócio-emocionais como auto-regulação, empatia, comunicação e criatividade.

Se os alunos são vistos e tratados como robôs que reproduzem conteúdos, eles terão dificuldade de compreender e comunicar suas questões humanas. É também muito recomendável formar a equipe pedagógica e administrativa da escola para identificar e lidar com esses indícios, e contratar uma equipe de especialistas para orientar a escola e as famílias nos casos concretos.

Mais do que tudo, o diálogo construtivo e a parceria entre pais e escola faz muita diferença na prevenção e solução dos casos. Jovens inseridos em ambientes de carinho, atenção individualizada, afeto e cuidado tendem a se sentir mais vistos e respeitados como indivíduos, e podem ser melhor apoiados.

*Fernando Shayer é fundador e CEO da Cloe, plataforma de aprendizagem ativa

Este é um conteúdo da Bússola, parceria entre a FSB Comunicação e a Exame. O texto não reflete necessariamente a opinião da Exame.

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Fonte: Revista Exame

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