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A hora e a vez dos funcionários do Museu do Prado


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Madri – Manolo Osuna, de 56 anos, não estudou arte, mas passou anos rodando as galerias do Museu do Prado como segurança e líder de uma brigada de sete pessoas que transporta os tesouros nacionais criados por mestres como Velázquez e Goya de um lado para o outro no edifício.

Com toda essa experiência, ele deixou o papel invisível que ocupa formalmente para se tornar um crítico improvável em uma série de vídeos no Instagram que está fazendo o maior sucesso.


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Feitos no celular e com a ajuda do pau de selfie, os clipes vêm atraindo um público internacional cada vez maior, que chega a quase cem mil espectadores diários, fascinados pelo passeio lento e decididamente nada hollywoodiano pela instituição, que conta como experiência realmente especial ver o que se pode fazer com as tintas.


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Todo dia, em meio ao murmurar de vozes que antecede a abertura diária do museu nacional da Espanha, superastros curatoriais e guardas uniformizados e de cachecóis vermelhos têm dez minutos preciosos para falar. E eles se concentram nas obras próximas que lhe são tão familiares, como a aristocrata de ar namoradeiro do século XIX de cetim verde-claro e pérolas ou a Virgem Maria embalando o Cristo crucificado.

Para muitos fãs, os vídeos já fazem parte do ritual do café da manhã, nos quais os especialistas dividem o mesmo espaço com os homens e mulheres que guardam as galerias, restauram as pinturas de Goya ou analisam pigmentos medievais no laboratório do museu.


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Cerca de 50 mil pessoas viram o diretor do Prado, Miguel Falomir Faus, discutir uma pintura renascentista mitológica de Ticiano, mas um número ligeiramente maior ouviu Osuna destacar um retrato popular, feito pelo pintor espanhol barroco Jusepe de Ribera, de um filósofo grego com um sorriso desdentado e unhas sujas. (“Ele parece um camponês. Os personagens de Ribera são pessoas da rua, comuns”, explica.)

A atenção aos funcionários, praticamente invisíveis, é uma raridade entre os museus internacionais, nos quais os empregados dos níveis menores, desmoralizados, há alguns anos resolveram se unir para formar redes de apoio on-line, trocar informações sobre salários e conduzir pesquisas anuais para avaliar as preocupações.

“É ótimo que o Prado reconheça os funcionários dessa maneira. Serve de modelo para outros museus”, diz Abi Godfrey, gerente em serviço do Museu Holburne, de Bath, na Inglaterra.

Em 2017, ela ajudou a fundar uma rede on-line chamada FOH Museums, dedicada aos empregados “da frente da casa”, que trabalham diretamente com os visitantes. “Os que são considerados ‘da parte de trás’ geralmente se diziam valorizados, o que contrastava gritantemente com os outros”, diz ela.

O criador da série do Instagram do Prado é Javier Sainz de los Terreros, de 37 anos, que nunca aparece na frente das câmeras, mas cuja voz suave e anônima guia os visitantes pelas galerias. Em entrevista recente, ele admitiu que suas imagens muitas vezes saem tremidas porque o estabilizador quebrou. “Mas essa característica casual, improvisada, faz parte do charme”, completa.

Se ele deixa de aparecer um dia que seja, os fãs começam a fazer perguntas sobre sua saúde. Um visitante deixou um envelope na entrada do museu, endereçado ao “Diretor do Instagram”, com uma lembrancinha de agradecimento. (Era um chaveiro com a imagem de Santa Teresa.)

“Você me surpreende com seu conhecimento e sua criatividade”, escreveu uma usuária do Instagram, comentando o vídeo do Dia Internacional da Mulher em que as funcionárias apareciam discutindo o autorretrato de uma artista do século XIX.

No início de 2019, Sainz de los Terreros começou a filmar obras do museu sem diálogo, e cada vídeo aparecia nos stories do Instagram por apenas 24 horas, mas os usuários começaram a pedir mais – e foi assim que ele criou a série mais longa e detalhada de clipes permanentes acessíveis hoje.

Javier Sainz de los Terreros, do Museu do PradoEmilio Parra Doiztua/The New York Times

A grande maioria contém uma participação ensaiada e cuidadosa de funcionários como Elisa Mora, restauradora que trabalha no Prado há 37 anos e está começando a avaliar a restauração de um retrato feito por Goya da Condessa de Chinchón, comprada pelo museu em 2000 dos descendentes da aristocrata.

De pé ao lado da tela em um estúdio lotado, ela aponta uma série de remendos antigos na parte de trás da pintura e explica que um raio X revelou que, na verdade, Goya tinha pintado o rosto de um homem, do qual se livrou cobrindo-o com as dobras prateadas do vestido de uma mulher.

Quanto tempo levará para ser restaurado? “No mínimo, uns sete meses”, garante.

Mais de 99 mil pessoas assistiram ao vídeo de Mora no Instagram e 260 mil no Facebook, sendo que muitos elogiaram a lição rápida no processo de reparo.

No Instagram, a artista argentina Julieta Varela pediu mais atualizações sobre restaurações, enquanto um usuário anônimo da Colômbia chamado “Nerd de Museu”, com 200 mil seguidores, classificou o vídeo como “um exemplo das melhores práticas que existem”.

Mora, que se diz tímida por natureza, se sente mais à vontade quando encara o smartphone em um pau de selfie. “Somos meio parecidos com os cirurgiões nesse sentido, pois não sentimos temor enquanto estamos trabalhando. Meu medo maior é falar.”

A maioria dos vídeos é em espanhol, sem legendas, mas o museu está organizando uma parceria com a Amigos Americanos do Museu do Prado para criar vídeos em inglês. Cerca de trinta por cento do público é espanhol.

O resto é composto por pessoas do mundo inteiro, com Itália e EUA logo depois da Espanha. Segundo Sainz de los Terreros, museus em Málaga e Veneza pediram conselhos do Prado porque também estão interessados em fazer os próprios vídeos ao vivo no Instagram.

Osuna, que aparece em alguns, se diz satisfeito com a reação positiva de visitantes do México e da América do Sul e daqueles que não podem visitar o museu pessoalmente – e nem sabia que mais de 50 mil pessoas tinham visto a apresentação de seu retrato favorito de Ribera, que começou a estudar há mais de quinze anos, quando começou a trabalhar no museu.

Nas conversas, chama o filósofo que aparece na pintura de “compañero” e confessa sentir uma conexão especial com o homem sorridente por causa de suas mãos, grossas em razão do trabalho manual.

“O mais legal é que o pessoal descobriu funções das quais nada sabia, e com isso também fica sabendo dos nossos desafios e dificuldades”, conclui Osuna, que às vezes é reconhecido dentro do museu pelos fãs do Instagram.

Fonte: Revista Exame

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