O ministro da Agricultura, Blairo Maggi, afirmou nesta quarta-feira (4), que a tabela de frete deve trazer um preço mínimo e respeitar a “sazonalidade da agricultura”. “Poderá existir uma tabela de frete? Sim, poderá. Preço de piso? Sim, poderá. O que o agricultor não aguenta, e ele não aceitará, é ter na tabela embutido lucros das operações e não atender a sazonalidade da agricultura”, disse.

De acordo com Maggi, o frete deve seguir a lei da oferta e da procura. “Uma tabela de custo mínimo pode ser absorvida, mas ela tem que ser o mínimo e a lucratividade, a atratividade deve virem função do quanto é transportado e quantas pessoas se envolvem nisso”, disse.

Ele também disse que a indefinição dos preços de frete causará um pico inflacionário. “Com toda certeza nós teremos um pico inflacionário sobre isso porque nós não estamos falando só sobre grãos, estamos falando sobre todo tipo de transporte, que vai encarecer e isso vai ser repassado para os preços”, afirmou.

O ministro falou depois de cerimônia de anúncio de plano de crédito para a safra 2018/2019, no Banco do Brasil, em Brasília. Maggi disse esperar que a medida provisória do frete, que está no Congresso Nacional, seja votada antes do recesso parlamentar, em julho. “É urgente que se defina isso, nós esperávamos que o Supremo desse uma posição, também não deu, agora tem a medida provisória sendo votada”, disse.

“Esperamos que ela traga algum conforto, que possa criar uma condição de um preço de referência, um preço mínimo de frete, para dar estabilidade aos caminhoneiros, mas que também não impute aos produtores rurais um frete superior a media que vinha sendo pago”, afirmou o ministro.

Tabela de frete trava setor de adubo no país

MAURO ZAFALON – A falta de um acordo nas negociações sobre os fretes paralisou o setor de fertilizantes no país. Os problemas ocorrem tanto no porto como na distribuição do produto para as regiões agrícolas mais distantes. Pelo menos 12 navios estavam no porto de Paranaguá nesta terça-feira (3). Três deles em processo de descarregamento.

Mesmo com três berços dedicados exclusivamente ao desembarque, o problema maior ocorre do lado de fora do porto. O adubo, em geral, é transportado pelos caminhões no chamado retorno. Deixam grãos e levam o fertilizante para as áreas de produção.Devido à falta de negociações a respeito do frete, pelo menos 50% dos caminhões que trazem grãos estão retornando vazios.

Em situações normais, 80% dos veículos que deixam grãos retornam com fertilizante. A dificuldade no escoamento do produto está provocando um gargalo no armazenamento no porto. A capacidade, que é de 4 milhões de toneladas, pode chegar ao limite. Além disso, as misturadoras de adubo estão com os seus armazéns lotados. Esse produto deveria estar a caminho das regiões produtoras do país, mas não há acordo no valor do frete.

As entregas em pequenas distâncias ocorrem, mas as de longa distância estão travadas. O custo do frete teve uma acelerada elevação, de até 100%, e o peso deste é grande no setor. Chega a 20% dos custos, segundo as indústrias. As entregas de adubo, um produto essencial para os produtores neste segundo semestre, ocorriam em ritmo normal no primeiro semestre. A greve dos caminhoneiros, contudo, provocou uma forte redução no ritmo.

O mercado estima uma queda de 27% em maio e de 30% em junho, em relação a iguais períodos do ano anterior.Tradicionalmente, as entregas de fertilizantes se concentram em agosto e setembro, meses que antecedem o plantio de grãos em todo o país. Só a área destinada à soja deverá atingir 36 milhões de hectares neste ano. O Brasil importa 80% do fertilizante que consome, e oito estados são responsáveis por 90% desse consumo.

Os maiores consumidores do país são Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Bahia, Minas Gerais, São Paulo, Paraná e Rio Grande do Sul.O fertilizante entra no país por oito portos e, em alguns casos, chega a viajar 2.000 quilômetros para chegar ao produtor. Números da Anda (Associação Nacional para Difusão de Adubos) indicam que ainda restam 27 milhões de toneladas de adubo para serem entregues nas diversas regiões do país. Esse volume deverá movimentar pelo menos 600 mil caminhões.

O cenário atual afeta toda a cadeia de produção. O custo maior do frete vai afetar empresas e deve chegar aos produtores. Estes vão receber menos pelas mercadorias que vão produzir. A Faep (Federação da Agricultura do Estado do Paraná) estima que, pressionados pelos custos, os produtores deverão produzir menos, acarretando elevação dos preços finais dos alimentos. A conta vai chegar ao bolso dos consumidores e à inflação.