No Dia Mundial da Obesidade, endocrinologista explica por que ansiedade, sono ruim e cortisol alto influenciam o ganho de peso, e por que culpa não é tratamento
“Eu sei que é só fechar a boca.” A frase é comum nos consultórios, mas, segundo a médica e docente do curso de pós-graduação em endocrinologia da Afya Educação Médica Porto Velho, Diana Sá, ela simplifica demais um problema complexo. No Dia Mundial da Obesidade, 4 de março, a especialista propõe uma mudança de olhar: menos julgamento, mais fisiologia.
A obesidade é reconhecida como uma doença crônica e multifatorial. Isso significa que não se resume a comer demais ou ter pouca disciplina. O corpo responde ao ambiente, e o estresse crônico é um dos fatores mais relevantes nesse processo. “Reduzir o ganho de peso à falta de disciplina é ignorar como o corpo humano realmente funciona. Quando falamos em obesidade, precisamos parar de tratar um problema biológico como se fosse apenas moral”, afirma a médica.
O que o estresse faz no organismo
Quando o corpo percebe uma ameaça, seja um prazo no trabalho ou um perigo real, ele ativa o eixo do estresse, liberando cortisol. Em situações pontuais, isso é protetor. O problema surge quando o estresse se torna constante.
O excesso prolongado de cortisol pode:
- Aumentar a glicose no sangue
- Favorecer resistência à insulina
- Direcionar o acúmulo de gordura para a região abdominal
- Alterar o metabolismo energético
“O corpo não sabe diferenciar um prazo no trabalho de um predador na floresta. Para ele, estresse é ameaça. E ameaça ativa o cortisol”, explica Diana Sá.
Segundo a endocrinologista, na maioria dos casos o ganho de peso não está relacionado com distúrbio hormonal isolado, como hipotireoidismo grave. Ele também pode ser causado pela interação entre estresse, privação de sono, sedentarismo e alimentação desorganizada.
A chamada fome emocional não é apenas falta de controle. Há mecanismos hormonais e cerebrais envolvidos.
Sob estresse crônico, ocorre:
- Redução da leptina (hormônio da saciedade)
- Aumento da grelina (hormônio da fome)
- Ativação do sistema de recompensa cerebral
O cérebro passa a buscar alimentos ricos em açúcar e gordura, que liberam dopamina e proporcionam sensação momentânea de prazer. “Quando alguém diz que come por ansiedade, existe um mecanismo hormonal e cerebral por trás disso”, afirma a médica.
Dormir mal também engorda
A privação de sono interfere diretamente no metabolismo. Dormir pouco pode:
- Aumentar o cortisol noturno
- Aumentar a fome
- Reduzir a saciedade
- Piorar a resistência à insulina
- Diminuir o gasto energético basal
Além disso, altera o julgamento alimentar — quem dorme mal tende a fazer escolhas piores. “Dormir mal não apenas aumenta o apetite. Ele altera o próprio funcionamento do metabolismo”, alerta Diana Sá.
O erro mais comum ao tentar emagrecer
Segundo a endocrinologista, dietas extremamente restritivas podem piorar o problema. “Restrição severa aumenta ainda mais o cortisol. Cortisol alto somado à dieta muito restritiva costuma resultar em compulsão futura”, explica.
A avaliação médica é indicada quando há:
- Ganho de peso progressivo sem explicação clara
- Fadiga intensa
- Alterações menstruais
- Histórico familiar importante
- Dificuldade persistente para emagrecer, mesmo com mudanças estruturadas no estilo de vida
As estratégias com melhor respaldo científico incluem:
- Regularizar o sono
- Treinamento de força
- Adequação da ingestão proteica
- Manejo estruturado do estresse
- Psicoterapia, quando indicada
- Tratamento medicamentoso nos casos apropriados
- Plano individualizado
“Abordagens extremas são pouco sustentáveis e podem agravar o ciclo de estresse e compulsão. Emagrecimento não depende apenas de força de vontade”, reforça a médica.
No Dia Mundial da Obesidade, a mensagem central é clara: compreender os mecanismos hormonais e neurobiológicos não elimina a responsabilidade individual, mas permite tratamento adequado. “O corpo não desobedece. Ele responde ao ambiente que você oferece. Quando entendemos isso, conseguimos mudar o ambiente, e o resultado também muda”, conclui Diana Sá.






