Saúde

Estresse, sono e cortisol: os fatores invisíveis por trás do ganho de peso

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Ricardo Brandão
Jornalista do site Portalrondonia.com com mais de 15 anos no jornalismo [email protected]

No Dia Mundial da Obesidade, endocrinologista explica por que ansiedade, sono ruim e cortisol alto influenciam o ganho de peso, e por que culpa não é tratamento

“Eu sei que é só fechar a boca.” A frase é comum nos consultórios, mas, segundo a médica e docente do curso de pós-graduação em endocrinologia da Afya Educação Médica Porto Velho, Diana Sá, ela simplifica demais um problema complexo. No Dia Mundial da Obesidade, 4 de março, a especialista propõe uma mudança de olhar: menos julgamento, mais fisiologia.

A obesidade é reconhecida como uma doença crônica e multifatorial. Isso significa que não se resume a comer demais ou ter pouca disciplina. O corpo responde ao ambiente, e o estresse crônico é um dos fatores mais relevantes nesse processo. “Reduzir o ganho de peso à falta de disciplina é ignorar como o corpo humano realmente funciona. Quando falamos em obesidade, precisamos parar de tratar um problema biológico como se fosse apenas moral”, afirma a médica.

O que o estresse faz no organismo

Quando o corpo percebe uma ameaça, seja um prazo no trabalho ou um perigo real, ele ativa o eixo do estresse, liberando cortisol. Em situações pontuais, isso é protetor. O problema surge quando o estresse se torna constante.

O excesso prolongado de cortisol pode:

  • Aumentar a glicose no sangue
  • Favorecer resistência à insulina
  • Direcionar o acúmulo de gordura para a região abdominal
  • Alterar o metabolismo energético

“O corpo não sabe diferenciar um prazo no trabalho de um predador na floresta. Para ele, estresse é ameaça. E ameaça ativa o cortisol”, explica Diana Sá.

Segundo a endocrinologista, na maioria dos casos o ganho de peso não está relacionado com distúrbio hormonal isolado, como hipotireoidismo grave. Ele também pode ser causado pela interação entre estresse, privação de sono, sedentarismo e alimentação desorganizada.

A chamada fome emocional não é apenas falta de controle. Há mecanismos hormonais e cerebrais envolvidos.

Sob estresse crônico, ocorre:

  • Redução da leptina (hormônio da saciedade)
  • Aumento da grelina (hormônio da fome)
  • Ativação do sistema de recompensa cerebral

O cérebro passa a buscar alimentos ricos em açúcar e gordura, que liberam dopamina e proporcionam sensação momentânea de prazer. “Quando alguém diz que come por ansiedade, existe um mecanismo hormonal e cerebral por trás disso”, afirma a médica.

Dormir mal também engorda

A privação de sono interfere diretamente no metabolismo. Dormir pouco pode:

  • Aumentar o cortisol noturno
  • Aumentar a fome
  • Reduzir a saciedade
  • Piorar a resistência à insulina
  • Diminuir o gasto energético basal

Além disso, altera o julgamento alimentar — quem dorme mal tende a fazer escolhas piores. “Dormir mal não apenas aumenta o apetite. Ele altera o próprio funcionamento do metabolismo”, alerta Diana Sá.

O erro mais comum ao tentar emagrecer

Segundo a endocrinologista, dietas extremamente restritivas podem piorar o problema. “Restrição severa aumenta ainda mais o cortisol. Cortisol alto somado à dieta muito restritiva costuma resultar em compulsão futura”, explica.

A avaliação médica é indicada quando há:

  • Ganho de peso progressivo sem explicação clara
  • Fadiga intensa
  • Alterações menstruais
  • Histórico familiar importante
  • Dificuldade persistente para emagrecer, mesmo com mudanças estruturadas no estilo de vida

As estratégias com melhor respaldo científico incluem:

  •  Regularizar o sono
  • Treinamento de força
  • Adequação da ingestão proteica
  • Manejo estruturado do estresse
  • Psicoterapia, quando indicada
  • Tratamento medicamentoso nos casos apropriados
  • Plano individualizado

“Abordagens extremas são pouco sustentáveis e podem agravar o ciclo de estresse e compulsão. Emagrecimento não depende apenas de força de vontade”, reforça a médica.

No Dia Mundial da Obesidade, a mensagem central é clara: compreender os mecanismos hormonais e neurobiológicos não elimina a responsabilidade individual, mas permite tratamento adequado. “O corpo não desobedece. Ele responde ao ambiente que você oferece. Quando entendemos isso, conseguimos mudar o ambiente, e o resultado também muda”, conclui Diana Sá.

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Brasil Digital
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