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Relato de Frei Carvajal ganha tradução definitiva em edição da Valer

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Ricardo Brandão
Jornalista do site Portalrondonia.com com mais de 15 anos no jornalismo [email protected]

Em 26 de dezembro de 1541, o explorador espanhol Francisco de Orellana, famoso como conquistador do Império Inca, juntou 59 homens num bergantim e partiu de um acampamento militar no rio Coca, logo abaixo de Quito, no atual Equador, para se tornar o descobridor do rio Amazonas. O Brasil nem existia de fato, e a Amazônia ainda estava longe de ser inventada, mas a história daquela viagem desbravadora correu o mundo graças aos escritos do frei dominicano Gaspar de Carvajal, encarregado da liturgia na embarcação e de deixar para a posteridade os registros da expedição.

Quase cinco séculos depois, aquele diário de bordo tantas vezes publicado em vários idiomas acaba de ganhar uma nova e talvez definitiva versão em língua portuguesa, desta feita assinada pelo professor-doutor Auxiliomar Silva Ugarte. O que o leitor do século 21 tem disponível a partir de agora, pela primeira vez, é a versão completa do texto Relación del famosíssimo y muy poderoso rio llamado el Marañon… (Relação do Famosíssimo e Muito Poderoso Rio Chamado Marañon, Editora Valer, 2021, 368 páginas).

A relação, aqui no sentido clássico, de relato, é apenas uma de três versões – e a menos conhecida – do testemunho constituído por Carvajal (1504-1584) da expedição de que participou sob as ordens do capitão Francisco de Orellana, entre 26 de dezembro de 1541 e 11 de setembro de 1542. A versão está inserida na obra de outro cronista espanhol do século 16, Gonzalo Fernández de Oviedo y Valdés (1478-1557), a Historia general y natural de las Indias, Islas y tierra firme del Mar Oceano, que chegou a ser publicada parcialmente na Itália, em 1555, mas só foi editada integralmente na década de 1850, na Espanha.

A tradução de Ugarte representa um importante avanço em relação às outras duas versões mais conhecidas do relato de Carvajal em língua portuguesa, a do estudioso Cândido Melo-Leitão (1886-1948), contida no livro Descobrimentos do Rio das Amazonas, de 1941, baseado na versão do espanhol José Toribio de Medina, e a tradução do etno-historiador Antonio Porro, publicada em 1993 na coletânea As crônicas do rio Amazonas, com o título Relação do descobrimento do rio Amazonas, de Gaspar de Carvajal, na versão de Oviedo y Valdés.

Embora seja considerada parcial, foi a versão de Antonio Porro que inspirou Auxiliomar Ugarte a apresentar à Universidade Federal do Amazonas, onde leciona, um projeto de pesquisa para uma nova tradução dos relatos de Carvajal. Porro tornou o texto do cronista espanhol quinhentista, segundo Ugarte, mais acessível e esclarecedor por meio de notas explicativas, contribuindo inclusive para a ampliação do conhecimento da história indígena da Amazônia.

As dezenas de notas bibliográficas reunidas no livro tornam a leitura mais instigante e prazerosa. Ali está a maior parte das notas elaboradas por Antonio Porro, e também algumas da versão de Toribio de Medina, esta utilizada por Melo-Leitão, o que dá ao leitor a oportunidade de comparar detalhes importantes de uma versão em relação à outra.

Para Auxiliomar Ugarte, as notas ajudam a esclarecer aspectos da nomenclatura geográfica empregada por frei Gaspar de Carvajal, a nomenclatura botânica, também, para esclarecer sobre determinados frutos que ele observou ou sobre os quais foi pretensamente informado. Com a ajuda das notas tem-se verdadeiras aulas sobre o uso de pimentas (axi) na culinária indígena, o cultivo do milho (mahiz) ou da mandioca (yuca), em escala doméstica, mas que mostra o estágio de desenvolvimento das nações indígenas interrompido com a chegada dos europeus. Axi, mahiz e yuca, como explica o tradutor, são nomes originários da língua taina, no original, e incorporados depois à língua espanhola. O povo taino, que no século 16 existia em toda a extensão do Caribe, hoje encontra-se extinto.

Além das notas bibliográficas, a nova tradução da Relação de Carvajal vem enriquecida por um anexo documental contendo cartas, petições e todos os autos de nomeação e tomadas de posse produzidos durante a viagem, e mais um estudo introdutório onde Auxiliomar Ugarte prepara o leitor para a viagem que irá empreender no tempo e no espaço, com a dimensão do deslumbramento desses primeiros viajantes à medida em que a expedição avança rio abaixo. O conceito Amazônia, como o entendemos hoje começou a se desenhar ali.

Só não há consenso entre os estudiosos sobre alguns fatos narrados por Carvajal, como lembra Ugarte. Por falta de precisão no texto original, não se sabe, por exemplo, a localização exata do acampamento do governador de Quito, Gonzalo Pizarro, de onde partiu a expedição. Sabe-se apenas que ficava no rio Coca, pelo qual o bergantim São Pedro navegou até adentrar o rio Napo e daí chegar ao Marañon.

No fim da viagem, depois de nove meses de penúria, fome e mortes resultado dos ataques sistemáticos de vários povos indígenas, principalmente depois de passarem pelo rio Negro, onde hoje está localizada a cidade de Manaus, frei Gaspar de Carvajal ainda se perguntava que nome teria aquele rio com medidas tão extravagantes e uma foz como jamais fora vista. Seria o Huyapari ou ainda o Marañon, questionou, sem saber que ajudaria a cunhar o nome definitivo do rio que no futuro seria reconhecido como o maior rio de todo o planeta, com seus 6.992 quilômetros de extensão. Foi chamado de “Mar Dulce”, por Pinzon, ao passar por seu estuário, em 1500, e “Rio de Orellana”, depois dessa expedição inédita, até receber seu nome definitivo, Amazonas, provavelmente por sugestão do rei Carlos V, após ouvir do próprio Orellana o relato sobre os ataques que a expedição sofreu de mulheres guerreiras assemelhadas, na visão de Carvajal, àquelas da mitologia grega. A aventura estava só começando.

Deslumbramento             

“No dia de Santa Eulália, havendo já passados onze dias de fevereiro (…) juntaram-se dois rios com o de nossa navegação, e eram grandes, em especial o que entrou à mão direita conforme vínhamos rio abaixo, o qual desfazia e senhoreava todo o outro rio, e parecia que lhe consumia em si; porque vinha tão furioso e com tão grande cheia, que era coisa de muito arrepio e espanto ver tanta juntada de árvores e madeira seca como [o rio] trazia (…)

(…) Muitos dos que ali íamos afirmavam que o rio era das serras de Maca, e era tão largo de margem a margem daí adiante que parecia que navegávamos engolfados por um amplíssimo mar.”

Relação (págs. 236/237)

 

Aqui, faltaram palavras ao frei Gaspar de Carvajal para traduzir o espanto diante do rio Marañon/Amazonas, em 11 de fevereiro de 1542, depois de 46 dias de viagem.

A notícia corre o mundo

A repercussão da viagem foi imediata, tanto nas Índias Ocidentais, a América, quanto e principalmente na Europa, como revela Auxiliomar Ugarte no Estudo Introdutório à obra de Carvajal. Os próprios membros da expedição, com Francisco de Orellana à frente, se encarregaram de espalhar a notícia boca a boca antes que os escritos do frei dominicano fossem conhecidos.

Começou já na ilha de Cubagua, onde os “amazonautas”, aportaram, depois de separados pelo mar, em 9 e 11 de setembro de 1542. Ali, o primeiro ouvinte atento, o clérigo Juan de Castellanos, aproveitou parte da narrativa para compor um livro histórico-poético que publicaria muitos anos depois, a Primera Parte de las Elegias de varones illustres de Indias. (1589)

Na ilha Espanhola (hoje Ilha de São Domingos), a história caiu no ouvido do cronista espanhol Gonzalo Fernández de Oviedo y Valdés, contada pelo próprio Orellana. Daí foi só uma questão de semanas para chegar ao conhecimento do influente cardeal veneziano Pietro Bembo, com quem Oviedo y Valdés mantinha uma correspondência assídua. Em carta de 20 de janeiro de 1543, traduzida por Ugarte, Valdés diz que não poderia deixar o cardeal alheio a uma coisa “tão grande e maravilhosa como é a navegação do grandíssimo rio chamado Marañon”.

Foi por essa razão que a corte espanhola e o próprio Conselho das Índias – segundo Ugarte “olhos e ouvidos” do Imperador-Rei Carlos V – souberam da descoberta em segunda mão. Orellana demorou a levar a notícia. No retorno à Espanha, resolveu parar em Lisboa, onde colheu os louros pelo descobrimento mas recusou a proposta da coroa portuguesa que pretendia contratar seus serviços para o rei D. João III.

Finalmente na Espanha, Orellana descobriu que havia um processo por traição movido contra ele pelo governador de Quito, Gonzalo Pizarro. Orellana levou oito meses, de junho de 1543 a fevereiro de 1544, quase o mesmo tempo da viagem pelo rio Marañon, para se defender e receber o reconhecimento pela descoberta. Em 13 de fevereiro de 1544, a coroa espanhola lhe concedeu os direitos de conquistar a Nueva Andalucia, nome dado às regiões banhadas pelo rio Marañon/Amazonas.

A carta ao rei Carlos V, onde Gonzalo Pizarro acusa Orellana de se rebelar contra as suas ordens, é um dos documentos originais reunidos por Auxiliomar Ugarte no Anexo Documental que fecha o livro. Por meio dessa documentação ficamos sabendo os termos do acordo pelo qual a Coroa Espanhola dá a Orellana o direito de governança do que descobriu em uma das margens do rio (Marañon/Amazonas), “com salário de cinco mil ducados a cada ano do que na terra houver (…)”, entre outros benefícios para si e seus herdeiros.

Não ficou registro do testemunho de Orellana ao Conselho das Índias, e, na avaliação de Auxiliomar Ugarte, é bem possível que tenha tido repercussão muito além do pequeno grupo de conselheiros, como nos ambientes profissionais da ciência náutica, de cosmografia e de elaboração cartográfica. “É na iconografia de vários mapas que podemos vislumbrar a absorção, quase imediata, de imagens mentais que se podem relacionar àquela viagem sob o comando de Orellana pela região que chamamos de Amazônia”, diz o estudioso.

Enquanto o descobrimento do Brasil permanecia obscuro para o mundo graças à política de sigilo imposta pela coroa portuguesa, no século 16, a bacia do rio Marañon/Amazonas – ou pelo menos o que ficou conhecido dela depois da viagem de Orellana – aparecia pela primeira vez na ilustração da América Meridional retratada em 1544 pelo navegador e cartógrafo anglo-veneziano Sebastián Caboto.

Sobre essa ilustração, Ugarte destaca a legenda escrita por Caboto que diz: “Rio de Las Amazonas que descobrio Francisco de Orillana”. E uma alegoria do combate entre soldados espanhóis e as guerreiras, o que, na avaliação do tradutor revela o impacto que causou na Europa a notícia da existência de amazonas naquela parte do mundo.

No Estudo Introdutório, Auxiliomar Ugarte analisa ainda o impacto da viagem dos amazonautas sobre a obra de alguns autores quinhentistas da importância de um Gonzalo Fernández Oviedo y Valdés, como os espanhóis Francisco Lopez de Gómara (La Istoria de las Indias y Conquista de Mexico, 1552) e Pedro de Cieza de León (Crónica del Peru, 1550), o francês André Thevet (Les Singularitez de la France Antarctique, 1557), e os portugueses Pero de Magalhães Gandavo (História da Província de Santa Cruz, 1576) e Gabriel Soares de Souza (Tratado Descritivo do Brasil, 1587 e publicado em 1851).

“Essas e outras obras contemporâneas ao escrito de Frei Gaspar de Carvajal me ajudaram muito no trabalho de tradução”, diz Ugarte, que dedicou uma parte do estudo que realizou à problemática contextual da Relação de frei Carvajal, segundo a versão de Oviedo y Valdés. Deste cronista ele destaca ainda como fundamental para o seu trabalho a obra Sumario de la natural história de las Índias, que Oviedo escreveu, segundo ele, para o recreio do imperador Carlos V.

Tarefa árdua

A traduão realizada ao mesmo tempo que a pesquisa consumiu três anos de trabalho. E o maior desafio para o tradutor foi lidar com as armadilhas criadas pela proximidade entre as duas línguas, a castelhana e a portuguesa. “A língua espanhola quinhentista não é a mesma da atualidade evidentemente. Então, tive que recorrer a teorias tradutórias principalmente do século 16, ou seja do tempo da Renascença europeia, e a reflexões sobre os problemas que homens dos séculos 15, 16 e um pouco do século 17 tiveram ao se verem confrontados com o trabalho de tradução”, disse Auxiliomar.

Para dar conta dessa “tarefa árdua”, o tradutor contou com a ajuda dos primeiros grandes trabalhos de sistematização vocabular, como a Gramática Castellana, de Elio Antonio de Nebrija, de 1645, e o Tesoro de la Lengua Castelhana (1611), de Sebastián de Covarrubias Orozco, que vem a ser o primeiro grande dicionário da língua castelhana, além do dicionário de autoridades do século 18. “Esse aporte me permitiu uma série de esclarecimentos que o recurso a dicionários contemporâneos nossos não permitiriam, além do mais antigo dicionário da língua portuguesa, o Vocabulário Portuguez e Latino (1712), do padre Raphael Bluteau”, pontuou.

Auxiliomar Ugarte não espera atrair apenas o leitor especializado, antropólogos, historiadores, arqueólogos e literatos, como disse, mas também os leitores comuns que venham a encontrar no livro um conjunto de informações antes não disponíveis sobre a Amazônia.

No texto Relação de Carvajal: A História na Confluência do Mito, que serve de prefácio ao livro, o escritor Zemaria Pinto diz que a relação de Carvajal é o texto fundador da literatura feita na Amazônia. “Os seus possíveis excessos fazem parte da nossa história e da nossa memória”, acrescenta.

A viagem de Francisco de Orellana que começou “impensadamente”, como escreveu Carvajal, só terminou cinco anos depois, quando o conquistador, já de volta ao rio das Amazonas para tomar posse de seus domínios, morre, aos 35 anos, sem data e local conhecidos, assim como também permanece desconhecida a causa da sua morte. Para uns, morreu afogado, para outros de uma flecha envenenada, ou de tristeza, como descreveu a mulher, Ana de Ayalla.

Certamente ele não previu o rumo que aquela viagem e sua própria vida tomariam. Desceu o rio Coca em um bergantim com 59 homens a bordo, sem qualquer instrumento de navegação sequer uma âncora. A intenção, como revelou frei Gaspar de Carvajal, era cumprir a ordem de Pizarro, de encontrar alimento para a tropa faminta e voltar em no máximo dois dias.

A realidade com a qual os amazonautas se depararam foi bem diferente. Depois do terceiro dia, já se punham a cozinhar tudo que tivesse couro, de bolsa, baús a solas de sapato, para saciar a fome. Quando encontraram comida farta, contando com a cordialidade do povo Irimaray, nove dias depois que deixaram o acampamento militar, já não havia como voltar.

 

 

 

 

 

 

FICHA DO LIVRO

 

Relação do Famosíssimo e Muito Poderoso Rio Chamado Marañón

FREI GASPAR DE CARVAJAL

 

Tradução, estudo introdutório e notas

AUXILIOMAR SILVA UGARTE

 

 

Detalhes do Livro

Editora ‏‎ Editora Valer; 1ª ed (1 junho 2021)

Idioma ‏ – ‎ Português

Número de páginas -‎ 368

ISBN-10 ‏ – ‎ 6555851740

ISBN-13 ‏ – ‎ 978-6555851748

Dimensões: ‎ 15.5 x 2 x 22.5 cm

 

 

 

 

SINOPSE

Pela primeira vez em versão completa em língua portuguesa, o texto de frei Gaspar de Carvajal, Relação do Famosíssimo e Muito Poderoso Rio Chamado Marañon, com tradução do professor-doutor Auxiliomar Silva Ugarte. Trata-se da versão menos conhecida do testemunho de Carvajal (1504-1584) sobre a expedição que percorreu toda a extensão do rio Marañon/Amazonas, sob o comando de Francisco de Orellana, entre 26 de dezembro de 1541 e 11 de setembro de 1542. A versão está inserida na obra do cronista espanhol do século 16, Gonzalo Fernández de Oviedo y Valdés (1478-1557), a Historia general y natural de las Indias, Islas y tierra firme del Mar Oceano.    

 

 

 

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