Profissionais da área da saúde relatam a mudança na rotina de trabalho, a saudade da família e como elas lidaram com a pressão nos hospitais de Porto Velho. Veja os relatos. O Dia Internacional das Mulheres, comemorado nesta segunda-feira (8), não é apenas uma data de celebração pelas conquistas feministas, mas um momento de reflexão sobre toda a carga emocional e física que as mulheres rondonienses passaram no último ano.
A vida de Saori Kadowáki, Isabella Naiara e Diana Pereira virou de ponta cabeça, 12 dias depois de comemorar o Dia das Mulheres em 2020, quando o primeiro caso foi confirmado em Rondônia. A médica, a fisioterapeuta e a enfermeira relataram ao G1 como elas lidaram com o aumento no fluxo de trabalho e a saudade da família.
“Renunciamos nosso tempo em família…”
Saori Kadowáki, médica plantonista na UTI da Assistência Médica Intensiva (AMI) de Porto Velho, soube do primeiro caso de coronavírus enquanto estava de férias com a família. Logo depois, começou a discutir com os colegas de profissão como a situação se daria no Brasil. Saori contou ao G1 relatos do aumento de pacientes na UTI do estado e a saudade da família. Leia o relato:
“Antes de Pandemia, já trabalhava na UTI AMI do estado. Recebíamos pacientes majoritariamente do Hospital e Pronto Socorro João Paulo II previamente regulados, e também do interior do estado. Por sermos referência de suporte intensivo no SUS em Rondônia. Com o ritmo de infecção acelerado pela Covid-19, nosso gerente clínico assumiu a responsabilidade de sermos referência na Assistência Intensiva ao Paciente com coronavírus”.
“A regulação juntamente com toda a equipe da AMI organizou a transferência de todos os pacientes da UTI para sermos exclusivamente Covid. A unidade passou por reestruturação de setores, instalação de microfones, sala de paramentação, distribuição de EPI, organização dos blocos, treinamento…”
A rotina de trabalho tornou-se intensa. O paciente acometido pela covid demanda vigilância intensiva extrema. Ajustes, manobras em conjunto com equipe multidisciplinar de fisioterapia, equipe de enfermagem, nutrição. Infelizmente muita rotatividade nos leitos por conta de óbitos, procedimentos médicos e a paramentação nos levou à exaustão.
Saori faz o acopanhamento de pacientes com Covid-19
Reprodução/Redes Sociais
“O paciente com Covid-19 demanda de acompanhamento e ajustes 24h por dia. Não é apenas o leito em UTI, é o conjunto da assistência do recurso humano que envolve o tratamento nessas unidades. Infelizmente a exaustão mental supera a física.”
Equipe de psicólogos, enfermagem, fisioterapia e familiares comemoram aniversário de um dos pacientes de Saori.
Reprodução/Redes Sociais
“O distanciamento das famílias com os pacientes gera um desgaste imenso, nossos boletins médicos são exclusivos por telefone e, os poucos contatos que temos com familiares são emocionalmente intensos e, doloridos.”
O medo de contaminarmos nossos familiares nos distanciou de filhos e marido. Nos dedicamos completamente a assistência e, renunciamos nosso tempo em família. Nossa prioridade era cuidar.
“Entendi que meu juramento médico não foi algo feito em vão durante minha colação de grau. A prioridade era continuar fazendo o que amava fazer. Mas, só consegui porque felizmente minha rede de apoio para terceirizar os cuidados com meus filhos foi maravilhosa. Me distanciei dos familiares para a segurança deles mesmo. ”
Saori Kadowáki, médica plantonista no Hospital AMI de Porto Velho.
Reprodução/Redes Sociais
“Não é fácil o temor da contaminação…”
Além de comemorar o Dia das Mulheres, Isabella Naiara, fisioterapeuta de 36 anos, também comemora seu aniversário. Ela trabalha na AMI e ainda dá aulas em uma universidade particular de Porto Velho. A fisioterapeuta relata que descobriu sobre o primeiro caso de coronavírus enquanto assistia TV e lembra: “acho que só caiu a ficha no dia que eu vi a unidade em que eu trabalho se esvaziando para receber só pacientes Covid”. Leia o relato:
“No início, tudo foi muito rápido. As aulas pararam e na unidade recebíamos fisioterapeutas inexperientes, então o início foi de me dispor para ajudar a treinar alguns colegas e aprender sobre a doença. Hoje, os plantões são muito mais extenuantes e cansativos, porque os pacientes são extremamente graves. Quase não há tempo de descansar.”
Há uma rotatividade muito grande e fora que vemos pacientes jovens que estavam bem, indo a óbito. Isso mexe com a equipe, mesmo com quem tá acostumado há 12 anos com UTI como eu.
Novos profissionais são treinados pela fisioterapeuta Isabella na AMI de Porto Velho
Reprodução/Redes Sociais
“Acho que mais difícil do que o aumento do trabalho, foi o aumento da carga emocional que esse momento acabou nos causando. Não é fácil o temor da contaminação, da contaminação da nossa família. Ver pessoas próximas doentes, da falta de estrutura muitas vezes pra trabalhar. Eu tentei manter a tranquilidade mas houve momentos de bastante ansiedade mesmo.”
Fisioterapeuta Isabella paramentada dentro da UTI da AMI em Porto Velho
Reprodução/Redes Sociais
“Medo do invisível…”
Diana Pereira, de 47 anos, trabalha há 22 anos como enfermeira no Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu). Ela comenta que soube do vírus através das redes sociais e viu o trabalho aumentar de uma hora para outra. Além disso, teve que lutar contra o medo de contrair um vírus invisível. Leia o relato:
“A gente não pensou que seria tão rápido assim. A gente teve que aprender a lidar com essa doença, no começo com muito medo, porque tudo pra gente era assustador. Quando pegava algum paciente, a gente já achava que estava com o vírus e já corria pra fazer um exame, qualquer sintoma que a gente sentia, já achava que estava doente”.
“Na época era difícil o teste, porque não tinha pra todo mundo. Eu mesma passei várias noites sem dormir, preocupada, porque eu tenho uma filha de 11 anos e tive que me separar dela, para proteger ela. Foi um dos momentos mais difíceis ter que me separar dela. Tive que tirar ela da escola, porque não tinha como eu acompanhar ela”.
“A gente trabalhava e de uma hora para outra, teve que ir em busca de Equipamento de Proteção Individual (EPI). Eu fui em várias lojas atrás de equipamentos, até mesmo do avental, porque as unidades não tinham para disponibilizar. Quando eu via, comprava três, cinco unidades.”
A vida começou a ficar muito agitada, as ocorrências foram aumentando, o medo foi aumentando a toda ocorrência tinha o medo do invisível, porque o vírus é invisível.”
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Fonte: G1 Rondônia






