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Rondônia, sexta, 22 de outubro de 2021.



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Contrabando, armas e ex-KGB: conheça o time que venceu o Real Madrid


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Edmund Addo se jogou em uma pose de criança no meio do campo, sua testa tocando a grama, seus braços estendidos à sua frente, um gesto de súplica e agradecimento. A cerca de 60 metros de distância, a euforia dominou seu companheiro de equipe Giorgos Athanasiadis, as pernas dobrando enquanto dois colegas tentavam ajudá-lo a se levantar. O treinador deles, Yuriy Vernydub, dançou na lateral do campo.

Eram todos recém-chegados ao Sheriff de Tiraspol: Addo, um meio-campista ganês, e o goleiro grego Athanasiadis haviam ingressado ao elenco neste verão; Vernydub os antecedeu apenas por um ano. Ainda assim, eles sabiam o que isso significava para sua equipe, que estava esperando por este momento por duas décadas. E eles sabiam o que isso significava para eles. Eles mudaram suas vidas para se mudar para um país que tecnicamente não existe, para jogar por um time sediado em um território disputado, um lugar em tons de cinza separado do resto do mundo. Agora, depois de derrotar o Dinamo Zagreb, campeão croata, eles tiveram sua recompensa: Addo, Athanasiadis e o resto do Sheriff estariam na Liga dos Campeões.


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No dia seguinte, eles conheceriam as identidades de seus adversários: Shakhtar Donetsk (contra quem estrearam vencendo em casa por 2 a 0), Inter de Milão e, o melhor de tudo, Real Madrid, todos viriam para a Moldávia, o país mais pobre da Europa, para competir na mais venerada, a mais rica, a mais famosa competição para qualquer clube de futebol. Na verdade, mais ou menos. E não é só porque o jogo desta terça-feira, o segundo da equipe na Champions, foi no Santiago Bernabéu contra o Real Madrid. Nem mesmo porque o time já fez história. A equipe venceu o time merengue por 2 a 1, gols de Yakhshiboev e Thill; Benzema fez o do Madrid. Na quinta rodada, os merengues visitarão Tiraspol.

Conto de fadas com tons de cinza

À primeira vista, a história do Sheriff pode ter o ar de um colorido conto de fadas, mas os detalhes são reproduzidos em tons de cinza. Tiraspol, a cidade onde o time está sediado, pode estar na Moldávia, ao menos no entendimento da UEFA, o órgão governante do futebol europeu. O Sheriff pode ser o atual, e essencialmente perene, campeão da Moldávia. Mas Tiraspol não se considera parte da Moldávia. É, em vez disso, a autodenominada capital da Transnístria — a República da Moldávia Pridnestrovian, mais especificamente — uma república separatista na margem esquerda do rio Dniester, uma faixa de terra de 40 quilômetros de largura com sua própria moeda (a Rublo da Transnístria), sua própria bandeira (vermelha e verde, com uma foice e um martelo) e seu próprio governo (o Soviete Supremo).

O Sheriff não se encaixa facilmente no papel de azarão. Ele ganhou todos, exceto dois títulos da Moldávia neste século. Ele joga em um complexo de estádios de última geração construído a um custo de U$ 200 milhões em uma liga onde muitos de seus oponentes jogam em campos precários, cercados por terrenos baldios, para apenas algumas dezenas de torcedores. Sua equipe está cheia de atletas importados, vindos da África e da América do Sul – incluindo o lateral Fernando Constanza, ex-Botafogo, e de grande parte da Europa Oriental, enquanto seus rivais só podem se dar ao luxo de, no máximo, colocar jogadores locais em campo.

— Raramente são comprados jogadores caros por aqui. Apenas o Sheriff pode pagar atletas de alto nível. Antes, algumas outras equipes podiam. Agora, não podem — disse Leonid Istrati, um proeminente agente de Chisinau, capital da Moldávia.

A fonte do poder financeiro da equipe está em seu nome. Sheriff é a peça central da economia privada na Transnístria, um conglomerado fundado por dois ex-agentes da KGB nos dias caóticos da década de 1990, após o colapso da União Soviética e a guerra de independência da Transnístria. Suas raízes, supostamente, residem no contrabando histórico da região. O status liminar da Transnístria, suas fronteiras porosas e sua história opaca são o lar de um dos maiores depósitos de armas ilegais da Europa, o que há muito a tornam um paraíso para todos os tipos de atividades ilícitas, desde o tráfico de armas até o tráfico de drogas e a falsificação de cigarros.

Em 2006, a força de monitoramento de fronteira da União Europeia estimou que, se as estatísticas de importação do território fossem precisas, cada pessoa na Transnístria comeria mais de 90 quilos de coxas de frango congeladas todos os anos. Até o fundador do Sheriff, Viktor Gushan, admitiu que sua empresa teve que operar “entre coisas”. Agora, porém, o Sheriff — o conglomerado empresarial e o clube — está em toda parte. Administra uma rede de supermercados, opera postos de gasolina, tem uma adega, um canal de televisão e uma rede telefônica.

— É importante lembrar que a área da Transnístria trabalha inteiramente para o Sheriff Tiraspol. Em Tiraspol, tudo é controlado por esta empresa. Existem lojas e postos de abastecimento do Sheriff. O clube de futebol é como uma criança alimentada por toda a área separatista — disse Ion Jalba, jornalista e comentarista na Moldávia.

Sheriff: time da Moldária fez história ao vencer o Real Madrid.Anadolu Agency/Getty Images

Histórias de corrupção

É isso que permite ao clube pagar a seus jogadores até U$ 15 mil por mês para jogar contra adversários regionais que ganham apenas algumas centenas de dólares, se forem pagos em dia. Zimbru Chisinau, historicamente o maior time da Moldávia, sobrevive apenas com o aluguel pago pela seleção nacional pela utilização de seu estádio.

Isso, por sua vez, deu ao Sheriff um poder considerável. Apesar das diferenças políticas entre a Moldávia e a Transnístria, a relação entre o clube e a federação de futebol do país, a F.M.F., é considerada extremamente próxima.

— O futebol aqui está no controle total do Sheriff — disse Cristian Jardan, um jornalista esportivo na Moldávia.

As autoridades não apenas adiaram os jogos desta temporada para dar ao Sheriff tempo para se preparar para as eliminatórias da Liga dos Campeões, mas também alteraram suas regras sobre o número de jogadores estrangeiros que uma equipe pode ter para fortalecer seu elenco, segundo Ion Testemitanu, um ex-vice-presidente da federação de futebol do país.

— Nenhuma outra equipe da Moldávia tem como competir com o Sheriff — disse ele.

Muitos times, então, nem mesmo tentam. No ano passado, os investigadores anticorrupção moldavos afirmaram que sindicatos de jogos de azar pagaram algumas centenas de dólares a jogadores em ao menos 20 partidas para garantir os resultados. Um delator disse ao jornal Ziarul da Garda que os jogadores eram instruídos de que seu trabalho era “ganhar, e não vencer”.

A corrupção é tão forte que, em 2015, até mesmo Testemitanu foi abordado por corretores que representavam um sindicato de Cingapura. Na época, ele não era apenas vice-presidente da federação nacional — a FMF. — mas também treinador adjunto da seleção da Moldávia.

— Eles me levaram a um bom restaurante, disseram que queriam informações e depois de meia hora me disseram o que estavam propondo. Eles queriam ‘consertar’ jogos da seleção nacional: as seleções juvenis, as seleções femininas, tudo. Eu não disse nada, apenas que precisava pensar a respeito. Então, imediatamente, liguei para a polícia e contei o que havia acontecido — contou ele.

Testemitanu concordou em usar um dispositivo de gravação e ser seguido por uma equipe de vigilância para ajudar os detetives a coletar evidências. Sua esposa o instruiu a não dormir em casa, para não colocar sua família em perigo.

— Eu estava com medo, é claro. Eu sabia que era um risco, mas eu quero um futebol normal na Moldávia — desabafou ele. Duas semanas depois, os conspiradores foram presos.

Isso não acabou com o problema. Somente no ano passado, as autoridades moldavas afirmam que os corruptos ganharam até U$ 700 mil subornando jogadores. É a prova, segundo Testemitanu, da corrupção endêmica no futebol moldavo, documentada por jornalistas e investigadores. Uma investigação do jornal Ziarul da Garda, por exemplo, descobriu que vários executivos de alto escalão acumularam enormes quantias e propriedades enquanto trabalhavam para a FMF.

— A FMF não investe no futebol da Moldávia. Ela investe em si mesma: constrói campos de treinamento e quadras de futsal, mas não distribui o dinheiro da FIFA e da UEFA para os clubes que precisam — denuncia Testemitanu.

A presença do Sheriff na fase de grupos da Liga dos Campeões deve ser uma chance para resolver isso. O próprio clube receberá cerca de U$ 20 milhões simplesmente por passar pelas eliminatórias. A FMF também vai se beneficiar de uma esmola da UEFA, uma recompensa por ter um representante nesta fase da competição. No entanto, há pouca esperança de que o dinheiro tenha impacto no futebol moldavo. As academias do país são subfinanciadas, suas instalações são precárias, exceto as do Sheriff, claro.

— Eles têm uma academia incrível, mas não promovem ninguém. Quase não há jogadores moldavos na equipe que vai disputar a Liga dos Campeões. Não é uma equipe da Moldávia. Na verdade, não é nem realmente um time da Transnístria —disse Jardan.

Por tudo isso, há uma emoção genuína com a perspectiva de o futebol da Champions League agraciar até mesmo o disputado solo da Moldávia. Testemitanu considera isso como um “sonho que se tornou realidade”. Ele assistiu ao jogo de abertura do Sheriff, contra o Shakhtar Donetsk da Ucrânia, no último dia 15, e espera conseguir ingressos para as visitas do Inter de Milão e do Real Madrid também.

Ele está disposto a sofrer a indignidade de viajar para Tiraspol e ser forçado a mostrar seu passaporte em uma fronteira que sua nação e a comunidade internacional não reconhecem, para ser registrado por autoridades que ainda fetichizam a iconografia da era soviética apenas pela a chance de ver essas equipes. Jalba está na mesma situação: ver uma equipe da liga moldava nesta fase, segundo ele, é “uma fonte de orgulho e um sentimento de espanto”.

Eles sabem que isso terá um custo, mas também há um fatalismo: é assim há tanto tempo que é fácil imaginar que diferença isso poderia fazer.

— O dinheiro da Liga dos Campeões contará para o Sheriff, mas mesmo sem isso, continuaria sendo o time mais rico da Moldávia de qualquer maneira — disse Jalba.

— As pessoas que dirigem o clube não se importam com o dinheiro. Eles já têm dinheiro. Eles não precisam de U$ 20 milhões. Eles controlam um país inteiro. É uma questão de reputação, de estar na primeira divisão, na Liga dos Campeões — disse Testemitanu.

Agora que o Sheriff está lá, porém, e que finalmente conseguiu, o que acontece é que a diferença está arraigada. Os últimos vestígios da tonalidade final de cinza desaparecem e tudo se torna preto e branco. Era isso que o Sheriff estava esperando; é o que o resto do futebol moldávio temia. Isso cristaliza a inevitabilidade de o Sheriff vencer a liga, mais uma vez, pela perpetuidade. Assistindo da Moldávia, não é um conto de fadas sobre um herói corajoso, mas muito pelo contrário. É a vitória final do gigante.

— Para o futebol da Moldávia — disse Jardan — este é o fim.

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Fonte: Revista Exame

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