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Rondônia, segunda, 20 de setembro de 2021.



Exame

Por que Porto Rico ganhou medalha se faz parte dos EUA?


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Foram 12 segundos e 37 centésimos memoráveis para Porto Rico. A corredora Jasmine Camacho-Quinn ganhou nesta segunda-feira, 2, o primeiro ouro e primeira medalha porto-riquenha na história do atletismo em Olimpíadas, ao vencer a prova dos 100m com barreiras.

Camacho-Quinn, que largou atrás mas foi ganhando posições durante a rápida prova, ficou à frente da americana e recordista mundial Kendra Harrison e da jamaicana Megan Tapper.


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Até então, Porto Rico tinha sete medalhas na história, seis delas no boxe e o primeiro ouro nas Olimpíadas de 2016, no Rio, com a tenista Mónica Puig.

Mas como é possível que o Porto Rico, que não é um Estado, mas somente parte dos EUA, compita com bandeira própria nas Olimpíadas?

A participação de Porto Rico nos Jogos como equipe independente acontece desde 1948 e mostra os desafios políticos que envolveram historicamente o esporte e o status político do país.

Porto Rico é uma ilha no Caribe, na América Central, e antiga colônia espanhola. Se tornou território dos EUA em 1898, depois que os americanos derrotaram a Espanha na guerra hispano-americana.

Desde então, Porto Rico faz parte dos Estados Unidos, sendo controlado pelo governo em Washington D.C. Os 3,4 milhões de habitantes da ilha também podem entrar livremente nos EUA, sem necessidade de visto.

Mas a ilha não chega a ser um estado americano, ao contrário do Havaí, que fez a transição de território para estado em 1959. Porto Rico é somente um “território não incorporado”, e por isso, compete separadamente nas Olimpíadas.

Os nascidos em Porto Rico podem escolher competir com a bandeira porto-riquenha ou com a delegação americana — como fez a tenista Gigi Fernández, porto-riquenha que foi ouro com os EUA no tênis de duplas em 1992 e 1996, mas até hoje é criticada pelos conterrâneos.

A própria Camacho-Quinn, que levou o ouro no atletismo hoje, nasceu na Califórnia, mas escolheu competir por Porto Rico por ter mãe porto-riquenha. Como Camacho-Quinn, vivem nos EUA mais de 5,5 milhões de porto-riquenhos ou descendentes, segundo o governo americano, uma das populações latinas mais representativas do país.

Sem voto

Os cidadãos porto-riquenhos não votam nas eleições americanas e não podem eleger representantes no Congresso. A ilha tem seu próprio Senado, uma Constituição e um governador eleito, mas não um presidente.

Seu status de território não incorporado é similar ao de Guam, Samoa Americana, Ilhas Virgens Americanas e Ilhas Marianas do Norte, também territórios estadunidenses. Mas o caso de Porto Rico é o mais complexo pelo fato de a ilha ser também a mais populosa, enquanto os outros territórios não passam de 100.000 habitantes.

O debate sobre se Porto Rico deveria virar um estado americano oficialmente é longevo. Já foram seis referendos sobre o tema, mas nenhum conseguiu chegar a um resultado majoritário e com apoio do Congresso dos Estados Unidos.

Delegação de Porto Rico na abertura em Tóquio: território compete nas Olimpíadas desde 1948, mas status como Estado é complexoMARTIN BUREAU/AFP/Getty Images

O último referendo foi feito em 2020, no qual os porto-riquenhos votaram para se tornar um estado por 52,52% dos votos válidos (e 54% de participação do eleitorado).

O anterior havia sido pouco tempo antes, em 2017, mas a participação de menos de 30% do eleitorado atrapalhou a legitimidade. O atual governo de Porto Rico defende a transformação em um estado americano, enquanto partidos de oposição e ativistas pedem a independência completa e que Porto Rico se transforme em um país.

Ainda que os porto-riquenhos votem para se tornar um estado dos EUA, a decisão final é do Congresso americano, onde as opiniões são divididas.

Alguns senadores republicanos já se declararam contra a incorporação do território, afirmando que transformar Porto Rico em um estado faria com que os democratas tivessem mais votos. Já o presidente democrata Joe Biden, eleito em 2020, disse que os porto-riquenhos devem ter direito a se tornar um país independente se assim desejarem, mas ainda não foram tomadas medidas concretas em relação ao tema em seu mandato.

A crise sobre o status de Porto Rico se aprofundou após o furacão Maria, que devastou o território em 2017 e deixou milhares sem eletricidade e cuidados básicos mesmo após o fim da tempestade.

Com as contas do governo porto-riquenho em frangalhos, ganhou força o debate sobre a responsabilidade dos EUA, com ativistas porto-riquenhos afirmando que, uma vez que os cidadãos não podem eleger representantes diretos, o Congresso americano deveria arcar com os custos para reerguer o país.

Área afetada de Porto Rico após o furacão Maria: desastre intensificou debate sobre responsabilidade dos EUA sobre o territórioShannon Stapleton/Reuters

Em meio ao imbróglio político, Porto Rico só começou a participar de Olimpíadas em 1948, meio século depois da primeira edição dos Jogos, que aconteceu em 1896 (o Brasil disputou sua primeira Olimpíada em 1920, na Antuérpia, Bélgica).

No mesmo ano, foi criado também o Comitê Olímpico de Porto Rico, reconhecido pelo Comitê Olímpico Internacional. Porto Rico ganharia sua primeira medalha logo na estreia, um bronze com o box.

Por não ser parte integral dos EUA, Porto Rico também não participou completamente do boicote estadunidense aos Jogos Olímpicos de Moscou, em 1980, quando boxeadores competiram (mas não ganharam medalha).

Em meio à Guerra Fria, os EUA boicotaram os jogos na Rússia, e Moscou devolveu o boicote em Los Angeles, nas Olimpíadas seguintes, em 1984.

Medalhas de Porto Rico

  • Juan Venegas (1948 Londres) — boxe/bronze
  • Orlando Maldonado (1976 Montreal) — boxe/bronze
  • Luis Ortiz (1984 Los Angeles) — boxe/bronze
  • Arístides González (1984 Los Angeles) — boxe/bronze
  • Aníbal Acevedo (1992 Barcelona) — boxe/bronze
  • Daniel Santos (1996 Atlanta) — boxe/bronze
  • Mónica Puig (2016 Rio de Janeiro) — tênis/ouro
  • Jasmine Camacho-Quinn (2021 Tóquio) — atletismo/ouro

A bagunça dos territórios

Questões parecidas às de Porto Rico ocorrem com outras bandeiras disputando as Olimpíadas neste ano.

A China, por exemplo, tem três times relacionados ao país em Tóquio: o de Hong Kong (ilha que faz parte do país desde 1997, mas com mais autonomia política até recentemente), o de Taiwan (que se separou do restante da China em 1949) e o da própria China continental.

Os atletas do Tibet também lutam há anos para participar sob delegação própria ou na equipe de refugiados, e não na equipe chinesa. A primeira medalha da história do Tibet veio da corredora Choeyang Kyi, bronze na marcha atlética de 20 km em Londres 2012, mas competindo com a bandeira da China.

Já o Reino Unido, formado por Inglaterra, Escócia, Irlanda do Norte e Gales, tem outro status complexo nos esportes. No futebol, a FIFA, federação internacional do esporte, autoriza que cada território tenha um time próprio, o que fez com que Escócia e Inglaterra, por exemplo, se encontrassem em uma disputa da Eurocopa deste ano.

Mas nas Olimpíadas, a equipe é unificada como “Time Grã-Bretanha”.

Os atletas da Irlanda do Norte podem, ainda, escolher competir tanto pelo time britânico quanto por um time unificado da Irlanda (o território irlandês é separado entre Irlanda, ao sul, e Irlanda do Norte, parte do Reino Unido). Há uma série de boxeadores da Irlanda do Norte que ganharam medalhas pela delegação da Irlanda, por exemplo.

Como no caso de Porto Rico, o Reino Unido tem também territórios não incorporados que competem de forma independente nas Olimpíadas, como Bermudas, que ganhou sua primeira medalha de ouro na história nesta semana, com Flora Duffy no triatlo.

Fonte: Revista Exame

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