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Rondônia, sábado, 19 de junho de 2021.



Exame

Cartões: nova regra para recebíveis atiça disputa trilionária por crédito


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Se você chegou à adolescência ou se já saiu dela certamente sabe que relações de amor e ódio são difíceis de superar, mas a pandemia equacionou ao menos uma delas: a do consumidor com o seu cartão de crédito, eterna tentação para mais gastos. Porém, os cartões e o benefício do pagamento à distância tornaram-se ainda mais populares com as quarentenas que mudaram o comportamento de consumo. Não à toa, os meios de pagamento digitais só crescem. Em 2020, movimentaram R$ 2 trilhões. Para 2021, a Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços (Abecs) prevê expansão entre 18% e 20%. Nesse ritmo, as operações com cartões de crédito, débito e pré-pagos devem chegar a R$ 2,4 trilhões – 30% do PIB brasileiro. 

A partir de 7 de junho, parte dessa montanha de dinheiro se tornará multiplicadora de crédito, atiçando a competição em um segmento de operações altamente concentradas entre bancos e credenciadoras de cartões de crédito que vão disputar um número maior de estabelecimentos comerciais, geradores de recebíveis – as faturas pagas pelos consumidores. Após três adiamentos, na próxima segunda-feira entram em vigor novas regras criadas pelo Banco Central (BC) para a negociação desses pagamentos futuros, considerados uma das mais fortes garantias aceitas no sistema bancário para concessão de crédito.


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Segundo a nova norma, todas as operações realizadas via cartão no país precisarão estar registradas em uma central de recebíveis. Para isso, o regulador autorizou algumas empresas a atuarem como registradoras, uma espécie de cartório digital dos recibos de cartão de crédito. Hoje, há três autorizadas a operar: a Câmara Interbancária de Pagamentos (CIP), fundada em 2001 e controlada pelos grandes bancos; a Central de Recebíveis (Cerc), fundada por um grupo de ex-executivos do mercado financeiro em 2015; e a TAG, criada pelo grupo Stone em 2018. “O grande objetivo dessa mudança é dar liberdade ao lojista para negociar seus recebíveis com diferentes credores. O que a registradora faz, basicamente, é reduzir a assimetria do acesso à informação”, diz Breno Moreira, líder de produtos e tecnologia da TAG.

Fernando Fontes, fundador e diretor da Cerc, pondera que a premissa das novas regras de recebíveis é a mesma do open banking: os lojistas são os donos de seus dados e só eles podem autorizar que terceiros acessem essa informação. “A vantagem é que uma vez que um banco obtém essa autorização, ele tem uma visão de mais de 50% das vendas do varejista”, afirma. A CIP entende que a qualidade da garantia é aprimorada, uma vez que, com o registro do recebível de cartões e o registro do contrato de ônus, gravame ou cessão, o recebível passa a estar vinculado ao contrato, diminuindo os riscos da operação de crédito, o que também têm um efeito positivo para induzir a redução de custos.

A expectativa é o registro modifique dois tipos de operação que impactam o fluxo de caixa dos varejistas brasileiros: a antecipação de recebíveis e o crédito com garantia de recebíveis. “Quanto mais transparência, melhor para quem vai emprestar e para quem vai tomar o crédito”, avalia Fábio Pina, economista da FecomercioSP. Ao EXAME IN, ele pondera que se o lojista tiver acesso a um pool maior de instituições interessadas em antecipar seus recebíveis, as condições de crédito tendem a ser melhores. “Hoje, o varejo fica refém do banco e do emissor de cartões. E essa mudança não vai acontecer no curto prazo. Depende de o empresário perceber os benefícios e começar a negociar com novas instituições”, afirma. 

O Banco Central é mais otimista e acredita que o crédito melhora já no curtíssimo prazo. “Com as novas regras para o registro de recebíveis, uma mudança complexa que exigiu esforço de todos, avançamos na competitividade da Agenda BC#, o que vai melhorar as condições de crédito no país já a partir da próxima segunda”, afirma o diretor de Fiscalização, Paulo Souza. O BC espera maior concorrência, redução do spread e aumento do volume das operações, principalmente no segmento de micro e pequenas empresas.  

Gigantes se movimentam

Para Pedro Coutinho, CEO da Getnet e presidente da Abecs, as novas regras vão dar mais transparência para os estabelecimentos comerciais, maior competitividade entre as instituições e maior segurança para quem conceder crédito com garantia em recebíveis. Segundo o executivo, é um momento de oportunidade que a empresa não vai deixar passar. “Temos uma gama de produtos que atendem esses estabelecimentos com capital de giro com garantia de recebíveis, antecipação automática. As ações que a Getnet tomar quanto às novas regras serão tomadas junto com o Santander”, afirma.

Uma das grandes mudanças imediatas que a nova norma traz para os bancos é a possibilidade de negociar com clientes que até então estavam restritos às instituições em que têm suas contas bancárias e às credenciadoras responsáveis pelo processamento das transações de pagamento das vendas realizadas. Em entrevista ao EXAME IN, Rodrigo Carneiro, diretor da Rede, empresa de meios de pagamentos do Itaú Unibanco, diz que o negócio está pronto para explorar essas oportunidades. “Somos líderes no mercado de antecipação de recebíveis e queremos nos descolar ainda mais da concorrência operando também os recebíveis de terceiros”, afirma o executivo. 

André Daré, diretor de produtos para pessoas jurídicas do Itaú Unibanco, destaca também a possibilidade dos bancos aproveitarem a nova norma para oferecer crédito a um excedente do mercado. “Os volumes financeiros dos recebíveis poderão ser divididos e os bancos vão conseguir ver a agenda de recebíveis dos estabelecimentos e, portanto, o excedente de garantias disponíveis no sistema como um todo. Dessa forma, poderão oferecer crédito para esse excedente, o que hoje não é possível”, afirma.  

Bradesco calcula que as novas regras vão ampliar em 25% o potencial de crescimento de sua carteira de operações de crédito com garantia em recebíveis. Atualmente, 28% dos clientes da instituição têm recebíveis com o banco, informa o diretor Alessandro Zampieri. Desde março, o banco vem comunicando as mudanças aos clientes e prestando orientações quando aos benefícios “optin” – a autorização de acesso à agenda de recebíveis.  

As instituições consultadas pelo EXAME IN não revelam o valor dos investimentos para se adaptar às novas normas. Daré, do Itaú, cita que foram investidas milhões de reais por todo o sistema. Lembra que o BC definiu a legislação. Foram milhares de horas de trabalho que envolveram mais de 350 credenciadoras, uma centena de bancos e as 3 registradoras. “Só no Itaú foram investidas mais de 100 mil horas de trabalho em desenvolvimento nesse projeto que tem uma regulamentação muito positiva para os empresários, inclusive, pela necessidade de acesso a crédito a juros baixos.”  

O Itaú Unibanco, segundo Daré, vai lançar o Gerenciador Financeiro de Cartões em 7 de junho. O recurso, que chega primeiro para o computador e mais adiante em aplicativo, permitirá ao cliente visualizar, num único lugar, quanto ele deverá receber dia a dia de todas as suas maquininhas. 

Competição aumenta

O desafio para os bancos será equilibrar a busca por mais espaço no mercado com a proteção à sua base de clientes atual. Afinal, não são só as instituições tradicionais que vão brigar pelos recebíveis: fintechs e fundos estão de olho no potencial do mercado. “As adquirentes deixam de ter exclusividade nas operações e passam a concorrer com outros agentes financeiros agora que o varejista manda no jogo. É claro que elas têm uma relação de proximidade com os lojistas, o que deve ajudá-las a preservar bastante do que já fazem de antecipação”, diz Fernando Fontes, fundador e diretor da Cerc.  

Uma das fintechs que já estão preparadas para atuar nesse mercado a partir do dia 7 é a Monkey, dona de um marketplace de antecipação de recebíveis que recebeu US$ 6 milhões em um investimento liderado pelo braço de Corporate Venture Capital do Itaú e pelo fundo americano Quona (que investe na Creditas e no Neon) em fevereiro deste ano. Especializada em duplicatas, empresa decidiu entrar no jogo de cartões de crédito quando viu a mudança na regulação. Para isso, criou uma nova área de negócio chamada de Spike, que está dedicada a desenvolver produtos para esse mercado. O primeiro resultado dessa nova divisão entra no ar agora em junho: é uma infraestrutura tecnológica que permitirá que as adquirentes acessem os dados das registradoras e enxerguem as transações que estão acontecendo fora de sua base de clientes. Depois, em agosto, a empresa deve lançar um marketplace em que o lojista poderá oferecer seu recebível a mais de 30 bancos e fundos para tentar encontrar ofertas melhores. 

Há também empresas sendo criadas do zero para aproveitar essa revolução no mundo dos recebíveis. A fintech Marvin, fundada por um ex-sócio da Monkey e um ex-diretor da registradora Cerc, é uma delas. Fundada em março deste ano e avaliada em R$ 65 milhões em um aporte da Mauá Capital, a empresa tem como objetivo facilitar as transações entre grandes indústrias e os pequenos varejistas utilizando os recebíveis de cartão de crédito. A ideia dos sócios é que o varejo pare de antecipar o valor e pague seus fornecedores com o próprio recebível agora que será possível alterar a titularidade do ativo nas registradoras.  

A tendência é que conforme o varejo for entendendo o novo poder de barganha que recebe com o registro dos recebíveis, mais soluções sejam criadas para tentar mudar as práticas desse mercado no país. O próprio BC espera “o surgimento de novas fintechs atuando tanto na oferta de crédito como também na prestação de serviços inovadores, tanto para lojistas como para financiadores”. Marcelo Martins, diretor da Associação Brasileira de Fintechs, concorda com a visão do regulador e ressalta que o registro centralizado dos recebíveis dará muito mais segurança para startups que quiserem se aventurar no setor. “Hoje não dá para saber se uma empresa está antecipando o recebível só com a sua empresa ou com outras do mercado também. Com a norma, teremos uma democratização do acesso, o que deve resultar em mais players disputando o segmento e criando novos produtos”, diz o diretor.    

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Fonte: Revista Exame