Preservação
Em nome da Especulação Imobiliária Derrubaram Uma Castanheira Centenária
17/04/2015|  Autor : George Duarte Ribeiro |   Fonte : George Duarte Ribeiro

Castanheira secular que existia em terreno ao lado do Residencial Cujubim, na Estrada de Santo Antonio, em PVH-RO, e que foi derrubada no domingo  da páscoa de 2015, para construção de casas de um Condomínio

Na Amazônia e no Brasil, de um modo geral, quando as leis ficam incompletas, dependendo de regulamentação, abrem-se “brechas” por onde o capitalismo selvagem, oportunísticamente, se aproveita para fazer valer seus insaciáveis e por vezes inconfessados interesses, fazendo leituras, interpretações das leis, que venham ao encontro de suas gananciosas e por vezes inescrupulosas ações, que, quase sempre, são antagônicas aos interesses das populações tradicionais, interferindo em seus modos de vida, dilapidando seus patrimônios, esfacelando sua estrutura sócio-econômico-cultural. No que se refere à proibição do corte de castanheiras na Amazônia, por exemplo, o Artigo 4º do Decreto Federal 1282 de 1994, era taxativo em coibir esta ação predatória, por se tratar esta nobre árvore de uma espécie ameaçada de extinção, caso continuasse a maneira irracional com que vinha sendo explorada.

Já o Decreto Federal 5975 de 2006, que revoga o Decreto Federal anterior, não discrimina de maneira explícita esta proibição de corte da castanheira, citando apenas a proibição de transporte e comercialização da mesma, o que deixa margem para que, contando com a complacência, a autorização do órgão responsável pela fiscalização e controle, descalabros, que ferem o bom senso comum e a racionalidade humana, sejam cometidos. Foi o que aconteceu com uma castanheira secular que se localizava nos fundos de um grande terreno localizado na Estrada de Santo Antonio, ao lado do Residencial Cujubim, que foi adquirido por uma incorporadora, que promoveu o desmatamento de toda área para construção de 72 casas de um condomínio fechado.

Quando estavam completando a limpeza do terreno (desmatamento) e iam derrubar a secular castanheira, que se localizava ao lado do antigo cemitério da Candelária, foram alertados por moradores do Residencial Cujubim de que não fosse cometida tal barbaridade, pois que se assim agissem, iam ser denunciados aos órgãos competentes de controle do meio ambiente, no que os responsáveis pela obra concordaram, deixando então intacta, sem mobilização do terreno, a área de projeção da copa da castanheira, que vegetava imponente e majestosa do alto dos seus quase 30 metros de altura e 1,5 m de DAP (diâmetro á altura do peito).

Mas qual não foi a surpresa dos moradores do Residencial Cujubim, quando nas primeiras horas da manhã do domingo de Páscoa (05 de abril de 2015), foram acordados com o estrondoso barulho da derrubada da castanheira secular, que acabou tombando em nome do fatídico e inexorável progresso... Foi feita denúncia desta ação nefasta à imprensa, e a repórter de uma emissora de televisão compareceu ao local, acompanhada de um cinegrafista, para fazer uma reportagem sobre o dantesco fato, e, questionando ao engenheiro da Construtora do porque da não preservação de tão magnífica árvore, obteve como resposta que a castanheira estava no lugar em que vai ser construída a área de lazer do Condomínio, e assim oferecia sérios riscos à integridade física das pessoas que por lá vão circular, por causa da queda de frutos (ouriços).

Ora, quem dispõe de uma área tão imensa (em torno de 40.000 m²) para construção de seu empreendimento, não podia abrir mão de algo em torno de 900 m², para preservação de um patrimônio que poderia ser até um símbolo de bom padrão de qualidade e respeito ao meio ambiente por parte do empreendimento? Então, por que não usar um pouco de racionalidade e preservar tão espetacular exemplo de pujança da natureza amazônica? Mas, não; preferiram usar a mesma lógica estúpida dos que procuram se locupletar explorando insustentavelmente o fabuloso espaço amazônico, para quem mais vale a floresta derrubada, a área limpa, a terra nua, para implantação de projetos da atividade agropecuária, que visam lucros o mais imediato possível, sem nenhuma preocupação com a sustentabilidade da região, tirando tudo que a terra pode oferecer, espoliando-a, exaurindo-a dos milenares recursos despendidos pela natureza em sua formação, do que preservar e explorar racionalmente, com sustentabilidade, essa magnífica dádiva que o Criador nos legou. Já, questionado sobre a legalidade de tal ação devastadora, um engenheiro ambiental da SEMA, que se fez presente ao local, disse que os responsáveis pelo empreendimento pagaram as multas estipuladas para cometer tal prática (perpetrar esse ignominioso crime ambiental, no nosso entendimento), que vão fazer a compensação ambiental estabelecida em lei (plantar 13 mudas da mesma espécie), etc., e assim, cumprindo todas as exigências legais, ficam em condições de fazer a demandada supressão da árvore.

Essas coisas sendo ditas em depoimentos feitos com a maior naturalidade possível, como se fosse a coisa mais banal do mundo a eliminação de um espécime tão raro como esta secular castanheira, como se em cada esquina se encontrasse uma outra igual a ela, que, em assim sendo, não passava de uma simples prática corriqueira e comum a sua supressão. O que salta aos olhos no desfecho dessa questão é como o poder econômico, por vezes, prevalece nas relações humanas, tornando possível, de repente, o que a princípio parecia difícil, inviável, improvável, impossível, tendo sido então, mera ação protelatória, um embuste, um engenhoso truque da Construtora, a iniciativa de preservar, poupar momentaneamente a castanheira, para ganhar tempo e fazer a negociação com o Órgão competente que pudesse avalizar seu interesse.

Uma vez de posse da documentação necessária, tinha então, a salvaguarda, o sinal verde para avançar em sua pretensão vil, em sua ação sinistra (e, paradoxalmente, a Construtora ainda usa como lema ser “uma empresa que cumpre o que promete”). E tambem a hora em que foi perpetrada tal ação, quase na calada da noite (por volta das 6 horas da manhã), quando não haveria ninguém que pudesse fazer qualquer questionamento, criar algum embaraço, esboçar alguma reação em defesa da malfadada castanheira secular, que poderia viver mais alguns séculos ainda em sua exuberância descomunal, mas cometeu o insidioso pecado de ter nascido e se desenvolvido logo onde a especulação imobiliária resolveu um dia cravar suas garras.



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